O setor financeiro é o maior peso do Ibovespa e, por isso, define boa parte do humor do mercado acionário brasileiro. Com a Selic ainda em 14,25% e sinalização de cortes apenas no segundo semestre, os bancos listados mantêm vento favorável na margem financeira — mas enfrentam questionamentos sobre qualidade do crédito e custo de funding no médio prazo.
Panorama do consenso
Segundo compilado da Forecast Brasil com base em 22 casas de análise, o lucro líquido recorrente do setor bancário deve crescer 7,8% em 2026, desacelerando em relação aos 11,2% de 2025. A revisão de expectativas nas últimas quatro semanas foi marginalmente positiva (+0,4%), concentrada no Itaú Unibanco e no Banco do Brasil, enquanto Bradesco e Santander Brasil tiveram ajustes neutros a levemente negativos.
Itaú Unibanco (ITUB4)
O Itaú segue como referência de eficiência: índice de eficiência abaixo de 40%, ROE projetado em 22% e expansão moderada da carteira de crédito (+9% em 2026). Analistas destacam a resiliência da receita de serviços e a gestão conservadora de provisões. O preço-alvo médio está em R$ 38,50, implicando upside de cerca de 12% sobre o preço de fechamento de 6 de junho.
O principal risco para as projeções é a competição no crédito consignado público, onde o banco perdeu share nos últimos trimestres para concorrentes mais agressivos em preço.
Bradesco (BBDC4)
O Bradesco vive o terceiro ano de reestruturação digital e enxugamento de custos. O mercado quer ver evidência de que a plataforma digital está convertendo em receita — não apenas reduzindo despesas. A inadimplência acima de 90 dias ficou estável em 3,4% no primeiro trimestre, mas analistas monitoram de perto o segmento de crédito imobiliário e veículos.
O consenso de lucro por ação para 2026 é de R$ 3,18, com revisões laterais nas últimas semanas. O valuation permanece atrativo (P/L de 7,8x), mas o desconto em relação ao Itaú reflete ceticismo sobre a execução do plano estratégico.
Santander Brasil (SANB11)
O Santander aposta em crescimento de carteira acima de 12% em 2026, liderado por consignado, veículos e crédito ao agronegócio. A estratégia de volume compensa margens mais comprimidas — a NIM (margem financeira líquida) projetada de 5,1% está abaixo dos 5,6% do Itaú.
A divergência entre bancos que priorizam margem e os que priorizam volume deve se acentuar se o Copom iniciar cortes de juros antes do esperado.
Provisões e inadimplência
O índice de inadimplência da carteira total do sistema financeiro nacional ficou em 5,7% em abril, segundo o Banco Central — estável em relação ao trimestre anterior. Para as projeções de segundo trimestre, o consenso assume provisões em patamar similar ao 1T26, sem deterioração significativa.
O risco assimétrico está para baixo: se o mercado de trabalho esfriar mais rápido — o CAGED de maio mostrou criação líquida de apenas 28 mil vagas —, provisões podem subir no segundo semestre e forçar revisões negativas de lucro.
Cenário-base Forecast Brasil
Nosso cenário-base para o setor bancário em 2026:
- Crescimento de crédito total de 10,5%, com desaceleração no segundo semestre;
- NIM média do setor em expansão de 0,15 p.p. graças à Selic elevada;
- Provisões estáveis, com risco de alta de 5–8% caso inadimplência suba 0,3 p.p.;
- ROE médio do trio Itaú/Bradesco/Santander em 19,5%.
Preferimos, no cenário-base, exposição a bancos com melhor combinação de eficiência e qualidade de ativos — o que nos leva a manter visão construtiva sobre Itaú e neutra sobre Bradesco e Santander, pendente de confirmação nos balanços de julho.