A reunião de junho do Comitê de Política Monetária confirmou o que boa parte do mercado já precificava: a Selic permanece em 14,25% ao ano, sem sinalização de cortes iminentes. O tom do comunicado, porém, foi mais cauteloso do que o esperado por um grupo relevante de analistas, o que desencadeou uma rodada de revisões no cenário-base para o segundo semestre de 2026.
Leitura do comunicado
O Banco Central destacou a persistência da inflação de serviços e a pressão sobre preços administrados. A menção explícita ao risco de desancoragem das expectativas — mesmo com o IPCA acumulado em 12 meses em trajetória de desaceleração — sugere que o ciclo de afrouxamento monetário só deve começar quando houver evidência consistente de convergência para o centro da meta de 3%.
Na prática, isso empurrou o consenso de mercado: enquanto em maio a mediana do Boletim Focus apontava o primeiro corte para julho, agora a maioria das casas trabalha com setembro ou outubro como janela mais provável. O Itaú BBA revisou sua projeção de Selic terminal em 2026 de 11,5% para 12%, enquanto a XP manteve 11,75%, mas com viés de alta no curto prazo.
Impacto nas empresas listadas
Para ações sensíveis a juros, a extensão do período de taxa elevada tem consequências diretas. Construtoras e incorporadoras como MRV, Cyrela e Even enfrentam custo de financiamento mais alto por mais tempo, o que pressiona projeções de margem e vendas financiadas. Analistas que cobrem o setor revisaram para baixo estimativas de VGV (Valor Geral de Vendas) para o segundo semestre.
No lado oposto, bancos como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil tendem a se beneficiar da manutenção da Selic elevada via remuneração de liquidez e spreads mais confortáveis no crédito. O setor financeiro, que representa cerca de 28% do Ibovespa, viu revisões de lucro por ação levemente positivas nas últimas duas semanas.
A postergação do ciclo de cortes não é necessariamente negativa para todo o índice — mas redistribui retornos esperados entre setores de forma mais acentuada do que um cenário de juros em queda gradual.
Nosso cenário-base revisado
Na Forecast Brasil, atualizamos nosso cenário-base macro com as seguintes premissas:
- Selic em 14,25% até setembro de 2026, com início de cortes de 0,25 p.p. por reunião a partir de outubro;
- IPCA fechando 2026 em 4,6%, acima do centro da meta, mas em desaceleração;
- Câmbio em patamar entre R$ 5,10 e R$ 5,30 por dólar no segundo semestre;
- Crescimento do PIB em 2,1% no ano, com desaceleração no consumo das famílias.
Essas premissas implicam múltiplos de valuation mais conservadores para growth stocks de baixa liquidez e suporte relativo para dividend yielders como Taesa, Copel e BB Seguridade. Empresas de tecnologia listadas na B3, como Totvs e Locaweb, permanecem sensíveis ao custo de capital global, mesmo com resultados operacionais sólidos.
Riscos às projeções
Dois fatores podem forçar nova rodada de revisões. Primeiro, uma surpresa inflacionária em julho — especialmente em alimentos e combustíveis — poderia adiar ainda mais os cortes. Segundo, um aperto adicional nas condições financeiras globais, com o Federal Reserve mantendo juros americanos elevados por mais tempo, limitaria o espaço de manobra do Copom mesmo com inflação doméstica controlada.
Monitoraremos o Boletim Focus semanalmente e atualizaremos este cenário-base conforme novos dados de atividade e preços forem divulgados pelo IBGE e pelo Banco Central.